quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A letter


Escrevo essa missiva para tornar público todo o meu sentimento. Sim, eu o amo, como nunca amei, nem amarei ninguém.
Era sábado de manhã quando o vi pela primeira vez, ou seria uma quarta feira? Lembro que ele chegara pouco depois de mais um momento de dor e sofrimento na minha curta vida. E quando o vi, o sol se abriu. Estava acompanhado de uma mulher e 1 homem. Do homem, mal me lembro. A mulher usava um conjunto amarelo claro. Lembro bem que eu estava assustada, triste, com cara de quem tinha chorado muito. E ele me disse para tomar minhas coisas porque me levaria para a casa. Eu mal pude acreditar! Finalmente sairia dali, daquele lugar chato. Onde tudo doía. Tudo o que eu sentia ali era que estava largada na casa de ninguém e ele fora me salvar.
Assim começou a mais linda história de amor do meu mundo inteiro. Quando eu fui adotada pelo pai mais amoroso e atencioso do mundo. Depois daquele dia, a situação se tornou estranha. Não tinha mais a meninazinha para brincar comigo e dizer-se superior. Ou aquele menino irritante para me beliscar, empurrar ou bater (só porque eu tomara uma parte do que era seu) - e eu nem tomara de fato, eu estivera ali, mas nem queria nada daquilo.
Fui para uma casa diferente. Muito menor, com certeza com muito mais habitantes, todos adultos (aos olhos de uma criança). Me colocaram na escola, eu não gostava da escola, mas a professora era boazinha comigo. Eu era gordinha e já naquele tempo me falavam disso, o que era frustrante. Ele deixou que eu o chamasse de pai, os meninos da casa não queriam ser meus tios, queriam ser meus irmãos, mas como? eu era tão pequena e eles tão grandes?
Naquela cabeça infantil, havia coisas sobre as quais preferi não pensar, como o porque me tiraram daquela outra casa, ou porque aquele homem estranho me aceitou como filha, ou em como a vovó queria que eu a chamasse de mãe. Mas se existia felicidade, aquela busca foi a primeira e maior alegria da minha vida inteira. E eu nem tinha completado 3 anos, quando tudo acontecera.
O bom mesmo era que agora eu via a Tia Paty quase sempre e ela me amava mesmo e de graça também, sempre me beijava, me abraçava,  me pegava no colo. Era boazinha comigo. Lembro que ela fez minha festa de 3 anos, cujo tema era moranguinho e eu chorei o dia todo, porque não queria ficar sozinha, nem que me levassem embora.
Nesse dia, minha avó penteara os meus cabelos como o de uma princesa, eu usava um vestido branco lindo que papai trouxera, um sapato de bonequinha e meias de crochê. Papai me levou à sorveteria, tomei sorvete de morango, eu adorava aquela cor, e logo parei de chorar, e pouco depois voltamos para minha festa de aniversário, com meu bolo bem grande, que minha avó fez com muito amor, a bisa também estava lá.
Papai estava sempre com um livro na mão, eu queria ser como ele, e por isso aprendi a ler rapidinho. Lembro que queria entender porque aqueles livros tinham tanto a sua atenção. E comecei a amar os livros e a ler os liros dele tão logo aprendi (aos 4 anos de idade), eu queria que todos me vissem e não me abandonassem mais.
No tempo livre, eu respondia os deveres da escola, inclusive aqueles cuja aula não tinham dado. Eu era protegida por todos naquela casa, como se eu fosse de porcelana. Era tanta a proteção, tão diferente do outro lugar.
Foram nestas circunstâncias que nasceu o maior amor do mundo. O de uma filha adotiva, por um pai cuidadoso, inteligente, honesto e que apesar de nunca estar em casa, deixava com ela seus livros para lhes fazer companhia. E que companhia! Aos 8 anos eu citava Manoel Bandeira. Aos 5 eu chorava porque ele não queria me levar à biblioteca. Aos 6 meu livro favorito era um de história do Brasil, que falava do descobrimento e das capitanias hereditárias. E papai me explicava pacientemente o quer era hereditário.
Eu li "É preciso lutar", "7 anos sem chover", "O caso dos bilhetes misteriosos", eu me perdia naquele mundo.

A vida é cheia de lembranças, mas a felicidade do dia em que eu o chamei de pai, faz com que eu não exija que ninguém entenda o meu sentimento, porque é precioso, é verdadeiro e é o maior amor do mundo. O amor dele é o de alguém que sofria para me educar, porque sabia que aquilo me magoava, mas que me educava assim mesmo porque queria que eu fosse grande. E sou, mesmo fragilizada, mesmo quebrada, eu sou grande. E sei que já fui muito longe... E que me julguem os demais, a opinião do meu pai é a que importa.